sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Izabel Abreu

A vida nos impedia
Mas você foi a primeira
A notar as imperfeições
Na lua, na poesia
No mundo, na nostalgia
Bem aqui
Dentro da gente
No lugar mais cartesiano que existe
Mas você acabou
Quebrando as unhas
Ao arranhar as paredes
Enfurecidamente
Porque algumas partes de você
Veem a totalidade
Como um caos
Enquanto outras partes
Pensam que são deus
Para criar iguais e contrários
Mas você acabou
Se ferindo
Além e aquém
De tais suposições
Que se baseiam
Em livros não lidos
Dentro de caixas de papelão
Agora que o seu caminho
Se desmensura sob seus pés
Vá com a certeza
De que você é a única lúcida
Entre nós.

Já quebramos os pratos
Cagamos em sacolas plásticas e jogamos no telhado do vizinho
Fizemos a piadinha ridícula perfeita
Ao mijar, temos sentido um forte arrepio
Não temos praticado a prostituição
Porque as paredes sempre estão
Nos maldizendo
Não perca o seu tempo
Porque você é a única lúcida
Entre nós.

Ainda não demos o nosso showzinho particular
Mas já não importa tanto
Porque você sabe melhor que qualquer um
Como é doloroso saber que estamos
Voltando ao pó
A vida sempre lhe foi atraente
Porque ela é a sua própria
Contradição
É o que diferencia os coveiros dos cravos
Já que você é a única lúcida
Entre nós.

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