quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Rima

Que rima
Te excita
Te transborda
Cujo sentido
Só você conhece
E te amanhece
Acordando-te
Em meio a pesadelos
Sobre o que você
Tem sonhado?
Que te faz despertar
Com fúria?
Depois você quer transar
Fuma antes de comer
Goza depois de fingir
Para falar de você
Só é preciso conjugar verbos banais
Não sei se sinto pena de você
Ou sinto dor.

Que rima
É capaz de brotar
Na parede
Como bolor
Pessoas que nunca
Compraram livros
A casa cheia
E as vidas vazias
Nas tardes quentes
Do mais maldito
Dos puteiros.


Que rima
É capaz de te fazer gozar
Como pétalas de rosas
Caindo por si só
Já um pouco desbotadas
A vida é somente
Três verbos
Ser e estar e haver.


Que rima
Poderia te fazer
Ver Deus
O dia em que eu vi Deus
Vi uma borboleta
Caída ao solo
Que morria
Morria
Batendo
As asas.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cicatriz

Acaso você esteja
Lendo essa aberração
Saiba
Que eu não espero nada
Olho no que nós nos transformamos
Olhe para este pátio vazio
As pessoas estão morrendo
Sem saber.

Acaso você possa
Perdoar
Tem que haver perdão
Para aqueles
Que desejam sinceramente
Uma segunda chance
É um ato muito heróico
Ao mesmo tempo
Libertador.

Acaso você entardeça
Ao meu lado
Não sinta remorsos
Neste caso
Você não tem culpa
São as noites
Talvez a vida
Você poderia fingir
Mas não pode
Teus deuses não acreditam mais em você
É o momento de voltar.

Acaso você volte
Como o filho pródigo
Mordendo desventuras
Seu corpo com as marcas de prostituição
E eu
Como uma ex-mulher
Porque agora eu sou cicatriz
Eu lhe ofereço meu corpo
Sangrando.

Acaso você esqueça
Das salas de torturas
Já seria um grande avanço
Desde criança
Estes pesadelos
Lhe acompanham.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Uma poesia desconcertante

Você não percebe
Que suas palavras
São como um furacão?
Se eles erraram
Já tiveram sua condenação
Porque o tempo da mentira
Passou
Você fuma cigarros
Bebe aos goles
Você não tem mais narinas
Mas o mesmo amor
Que é sinônimo de perdão
Também é justiça
O amor é cego
E corta
Dos dois
Lados.

Eu te dizia coisas tão vivas
Mas você as matava
Depois partia
Com tristeza
Você sempre teve
Olhos tristes
Sobretudo depois de fumar
Maconha.

A verdade é que
Eu também tentava te assassinar
Envenenando
O teu café
Frio
Mas eu sempre te
Ressuscitava
Ao escrever poesias
De amor
Sobre você.

Você quer uma poesia desconcertante?
Ela disse
Acabou o vinho
Ele lhe respondeu
O que eu tenho com isso?
A minha hora
Não chegou
Ela disse para todos
Façam tudo
O que ele vos
Disser.

Sexo oral

Que a gente carrega em si
Depois esquece
Repete o mesmo
Sem perceber
Eu sempre te pedia
Pra me ensinar
A escrever poesias
Mas você nunca quis
Eu mijava
Me afeitava
Eu te comia
Com as mãos
Ao tocar
Os teus seios e as
Tuas coxas
Teus lábios, teus pecados:
Dentro do teu útero
Eu era um homem
Sem nenhuma experiência
Porque você sempre
Se apresentava
De forma distinta
Gozar parecia amor
Era um sexo oral
Sem palavras.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poemas de amor

Você me dizia
"Isso não é poesia, isso não se ensina"
Eu te respondia
"Estou falando de palavras,
Não de dores"
Você sorria
"Nada passa, embora o dia rompa
Sem nós dois e sem inspiração"
Depois te confessei
Um dia desses
"Com você valeu a pena
Escrever garranchos
Que nos feriam
Ainda mais
Que nos cortavam
Que nos tingiam"
Você perdeu as
Palavras
Desde então
O silêncio fala por nós
Porque não há novidade
Com a morte
Palavras não morrem
Palavras não sentem
Palavras não amam.
Palavras que não estacam
Poemas
De amor.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Tudo sobre o menino de olhos castanhos

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
Os vícios baratos
As mentiras sem razão
Corpos nus desbotados
Um pano fino
Seda ou tafetá, talvez
Os lençóis sujos
O cinzeiro no pé da cama
A garganta irritada
De tanto fumar
As narinas feridas
De tanto cheirar
Os olhos vermelhos
De tanto entardecer
O lixo espalhado pela casa
Junto com as roupas sujas
A vida pelo chão
Eu já sei
O banheiro é o seu único amigo
Quando você tem vontade
De chorar
As prostitutas da Rio-Bahia
Não sabem seu
Nome
Mas saiba que nada
Passou.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
Mais algumas coisas suas
Que ficaram aqui
Você deveria perdoar
A sua mãe, o seu amigo, o seu irmão
Os olhos dele brilhavam
Quando lia
Mulheres
De Bukowski.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
E a parte mais dolorosa
De se conjugar o verbo
Viver.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal

É Natal na América Latina e em suas favelas
É Natal na sarjeta
Também no calvário
Antes e depois de se matarem
Com palavras enferrujadas
Escutem as risadas do agora:
É um amigo-secreto de produtos chineses
Estão trocando sobretrabalho chinês
Estão trocando sentimentos vazios e retornáveis
Estão trocando desejos de um mundo pela ordem
E a ordem latia
Como um cachorro na corrente
Nas economias agroexportadoras
Regidas pela superexploração
É Natal nas salas
De tortura
Após o silêncio ensurdecedor
Dos interrogatórios
Dos campos de soja
A senzala estava
Escancarada
O silêncio
É uma faca de serra
Com os dentes
Desgastados.





terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Os filhos do Golpe

Os filhos do Golpe
Não nasceram de úteros
Acabaram saindo pela garganta
Cortada
Eu queria escrever poesias
Honestas
Mas agora que chove na metrópole
As doenças
Estão acordando
Eles fumam com a
Garganta cortada
Por isso
Sentem tanta paranoia
O seu sangue escorria devagar
Aquela bisca com a morte
Não se findava
O pasto estava sujo
Seres humanos que comem lixo
O querer
Inclusive as montanhas desmatadas
Também querem
Não há saciedade
Tudo lateja
Nada estanca.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

É claro que o amor é bem maior do que isso tudo

É claro que o amor
É bem maior
Do que isso tudo.

Não há navalha
Mais afiada
Do que palavras
E como nos ferimos!
Indigesto
Percurso
Transponível
Transbordante
Amanhecer
Tão triste.

Nunca conheceríamos a paz
Porque nascemos
Para errar
Eu amo
Tudo o que você odeia
Que não tem o dom
De virar uma prosa sensível
De imitar um droga barata
De simular uma foda paga
Terminarei
Com os dedos.

Sentirei sua falta
Quando eu estiver com outras putas
Usando antônimas.

É claro que o amor
É bem maior
Do que isso tudo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Descansar

Nos escombros da vida
Onde crianças perdem
As pernas
Aos brincarem
Em áreas
Com minas terrestres
Abandonadas.

Enquanto eles esperam
Pela felicidade
Outros esperam por justiça
Você vai descansar
Enquanto cuido
Do seu sono
Depois que passei sal
Nas suas feridas.

Se você acordasse
Cedo
Teríamos muito para contar
Mesmo que seja difícil
Usar adjetivos
O único poeta
Que você não assassinou
Fui eu
Mas não era a mim
Que você buscava.

Você procurava por elas
As poesias de amor
Que eu teimava
As crianças
Que não têm família
O perfume de estranhos
Que você esbarrou
Pelo tempo.

O que você esperava?
Uma poesia que falasse do belo?
Aqueles meninos
Vivem no gerúndio
Usando drogas e morrendo
Outros se masturbando
Outros estuprando.

Você deveria descansar.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Vermelho sangue

Vermelho sangue
Que as santas choram
Sangue tinto
Da primeira
Menstruação
Tomate sangue
Dos corpos sem ficção
De gente
Que não foi corroída
Pelo tempo
Sangre rubro
Desses que morrem
Tão jovens
Vermelho scarlet
De bocas que se desejam
Que se amam
Desesperadamente
Mas acabam por estuprar a si mesmos
A se destruir
Ao maldizer
Ao se ferir
Vermelho alaranjado
Das orgias
Incandescentes
Sangue sangria
Que derrama
E derrama
Termina por virar
Poesia.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Da condição do outro

Mas não se esqueça
Da condição do outro
Porque se aproveitar
Da insegurança e da fraqueza alheia
Também é uma forma
De tortura
Em alguns sentidos
Pode até ser
Um tipo
De estupro
É claro que você poderia ficar rico
Vendendo sonhos
Destruindo corações
Armando
Arapucas
Fingindo desfrutes.

Mas não se esqueça
Da condição do outro
Porque pessoas
Não são
Poesias
No coração
Não cabem móveis
Nem orações
Nem campos de concentração.

Mas não se esqueça
Da condição do outro
Na cidade dos suicidas
Eles buscam
A morte
Mas ela se afasta deles
Quando se tem muito
A pagar
Não se precisa de pressa
Para pedir a conta.

Mas não se esqueça
Da condição do outro
Porque lá na cruz
Lhe prometi
Que estarias ainda hoje
Comigo
No paraíso.

Falar

Falar a língua vulgar
Do povo
Como ejaculações
A vida em devenir
Porque a existência
Só se efetiva
Como uma probabilidade
Um
Entre milhões
Mas o verbo ser
Não cabe
No espaço
Ser não é estar
Ser
Não é haver
Palavras novas e velhas
Sentidos particularidades
Gírias modernas
Gozar fora
Pra não ter problemas.

Falar a língua inculta
Da vida
Com suas coxas
Os olhos falam
A pele fala
A respiração fala
As paredes falam
São discordâncias verbais
Tratam-se de histórias
Que mesclam a mentira e a verdade
Tudo na vida
É uma mistura
De mentira e verdade.

Falar a língua sexual
Das bocas que se ferem
Das tardes
Quentes
Já que a propriedade privada
É bem mais que
Pronomes possessivos
O amor não é um verbo
Não se conjuga
Não tem tempo
Não tem pessoa
Não tem Pessoa.

Falar a língua maternal
Que Deus escreve certo
Em linhas
Tortas.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Diabólicos

Nas esperanças
De grávidas drogadas
Que desistiram
Do aborto
Que fumam um cigarro
Atrás do outro
Depois
Leem
Poesias
Porcas
De um poeta
Que o seu nome
Não faz
A menor
Importância.

Por causa de ti
As horas
Se consomem
Como parafina
Só um pouco de mim
Tem se resguardado
Da chuva
Sei que você
É uma totalidade
E eu sou
O seu complementar.

Nas noites
Em que não há
Mentiras
Você sempre sabe
Que nada passa
Até o nascer
Do dia.

No dia que você
Conseguir
Se feliz
Não vai precisar
De vícios e de
Canções.

Eu metia em você
E seus olhos
Eram
Diabólicos.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Uma poesia de amor

Parecia imensa
Mas era apenas
Uma poesia de amor
Sem autoria, sem destinatário
Sem motivo
Por isso
Falava de nós
Porque o amor é caótico
O amor também fere
Também estupra
Também mata
E o nosso amor
Não poderia ser diferente
Você nunca foi ao Porto da Barra
Mesmo que tenha sido
Naquele maldito lugar
Onde fiz as minhas mais profundas
E dolorosas
Promessas de amor
Nenhuma poesia falava de ti
Porque eu nunca fui bom
Para escrever verdades
Nenhuma carta poderia ser enviada
Porque o suicídio
Também é uma superestrutura
Um grande latifúndio
Intransponível
O amor é um imenso retângulo
Delimitado
Por cercas de arame
Farpado
Eu sempre penso em ti
Quando leio jornais esportivos e poesias contemporâneas
Que falam
Daquele tipo de gente
Que não tem final feliz
Não tem justiça
De lágrimas
Que nunca serão notadas
Vozes nunca ouvidas
Porque o que nos une
É muito mais do que a língua
Do que as coxas
Mamilos
Genitais
Você urinava
Em mim
E essas palavras
Perdiam o sentido
Se distorciam
Viravam outras dez.