sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Caatinga

Todas as coisas
Que falam sobre ti
Como sentimentos
Sem definição
Como a caatinga
Da catingueira, imburana, jurema-branca
Mandacaru, coroa-de-frade
Os rios perenes
Que deságuam
Em nós
Úlceras que latejam
Livros velhos amontoados
Restos de drogas pela casa
As seringas de heroína
Palavras desnecessárias
Se o todo reproduz
O analfabetismo
Como instituição
Não adianta uns gatos pingados
Estudarem
Porque continuarão
Reproduzindo o todo
Analfabeto
Não estou falando
Da cocaína
Porque é só chover
Que a braquiária seca
Volta se esverdear
Muito menos
Da prostituição
Porque é apenas uma versão
O que sabemos
Sobre nós mesmos
Nem estou falando
Da bissexualidade
Porque o amor
Não escandaliza
Mas nunca reproduz
O pudor.

domingo, 3 de setembro de 2017

Nada mais que a incoerência

Eu sou a incoerência
Especialmente
Quando fodo com alicates
Em momentos como se
O próprio mundo
Também não fosse incoerente
Ontem eu sonhei
E isso foi angustiante
Quase desacordado
Sob o efeito de remédios sem bula
Me lembrei
Daquela orgia
Com aquela família
Naquela casa
Onde sempre transei
Me lembrei
Daquela menina
De olhos verdes sem fome
Que como o vento
Desapareceu
No início, eu imaginei que ela estava contaminada
Depois eu sonhava
Que ela tinha outro
Isso tudo para justificar
O que não posso controlar
Não se controla verbos
Muito menos o verbo ter
Mas a fé brotava
Como roseiras atômicas
Mas a paz ainda não se deixava
Encontrar
Não há paz
Quase se veste uma
Camisa de Vênus
Sob o efeito do álcool e drogas.



Eu sou a incoerência
Justamente
Quando meus olhos estão vermelhos
De tanto chorar e de tanto entardecer
Poucas coisas me fazem chorar
Mas tenho chorado
Ao ler poesias de amor
Que não foram escritas
Para mim
Mas no fundo
Falam de mim
A incompreensão me faz chorar
As tardes quentes
Do Brasil.


Eu sou a incoerência
Somente
Nestes instantes onde os vagões
Lotados de trabalhadores
Forçados
Param na contramão.


Eu sou a incoerência
Logicamente
Em todas as minhas tentativas
De viver.

sábado, 2 de setembro de 2017

Ver e sentir

Tudo o que você é
Não passa de um mero
Ponto de vista
Da mesma forma
Que o criar e o destruir
São apenas
Duas formas diferentes
De enxergar.

Tudo o que você pode
Seria tão grande
Se a teimosia não fosse
O teu pilar
Santa ignorância
Depois de distribuir
Os dons se acabaram
Ao homem
Não lhe sobrou nada.

Tudo o que você será de vez quando
Como algumas travestis
Nas ruas do centro da cidade
Oferecendo o que elas têm de mais precioso
Além do próprio corpo
A juventude eterna
A imortalidade
O vírus da AIDS
Como ex-fumantes
Ex-presidiários
No fundo todo alcoólatra
Está se enganando
Como feridas incandescentes
Tios pedófilos
As flores que brotam
Da sujeira das ruas
Elas gozavam e os olhinhos
Se fechavam.

Um homem comum

Que nasça
Que morra
Que falem
Eu nunca fui mesmo
Um homem comum
Eu sou um pé de mamão macho
E por você
Já chorei, já escrevi poesias
Fiz tanta loucura
Fui embora
Voltei
Pichei muros
Queimei como a braquiária
Morri de tanto
Ser e estar e haver
Ressuscitei no terceiro dia
Já tomei taxi pro banheiro
Depois que fui expulso
Do céu
Voltei a morrer nos outros dias
Fedi igual arruda
Igual incenso, igual macumba
Conversei com o diabo
Em pleno transe
Sobre o capitalismo e poder do mundo
Até ele se cansar de mim.
E por você
Já fugi de hospitais
De manicômios
De prisões de segurança máxima
De consultórios de dentistas
Já fui um tolo
Já fui um bobo
Como folhas de taiobas
Como o capim cidreira.
E por você
Eu mentia descaradamente
Te acompanhando
Até o calvário.
E por você
Já fui carne
Já fui espírito
Já fui pássaro
Sabiá
Cuitelinho.

domingo, 27 de agosto de 2017

Bombas atômicas

De tudo o que planejamos
Quase nada
Se realizou
Mas não adianta culpar
As coisas pelo caminho
Aquilo que encontramos
Aquilo que também deixamos
Além do que
Todo mundo tem o direito
De se sentir inseguro
Os coentros não falam
O céu sempre chora
Os aviões vomitam rosas
Nas minhas conversas
Com a morte
A gente só falava
Sobre a vida.

Mefistófeles

Sentado numa poltrona
No meio
Do corredor estreito
Sem janelas
Eu tentava adormecer
Mas parecia também
Que eu via uma paisagem
Que passava
Mefistófeles não parava
De me fazer perguntas
E se metamorfoseava
Em formas de mulher
Me oferecendo cigarros
Me mordendo as orelhas
Me dizia
O que te ocorre
Meu pobre
Fausto?

Taxi pro banheiro

Depois de muito soro
Sobram-se poucas veias
Totalmente desorientado
Depois de ter alta
Na clínica particular
Eu não tenho uma opinião formada
Sobre o fato
Da sociedade
Não se preocupar
Com o homem médio
O homem estatístico
Do celular
Chamou
Um taxi
E foi para um puteiro
Estava de roupa normal
Mas se sentia
Ainda
Com as roupas de hospital
Encontrou
Uma velha
Cara de índia velha
Que tinha fedor de axila
Depois meteu
Num viadinho mulherzinha
Com pés com mau cheiro
Que gritava como
Um louco
Depois pediu
Para ser metido.

No mesmo celular
Combinou com um carinha
Nos banheiros
Do parque
Onde havia uma igreja sem anjos
Mas o carinha ao vê-lo
Sentiu
Nojo.

Beco do Dólar

Os corpos mortos
Daquelas crianças baleadas
Tinham um tom de tristeza
Que se misturava com a ganância
Das manhãs
Do Beco do Dólar.

Depois de espancar
A prostituta
Aquele pai amável
Foi chupado
Por uma bichinha
Na madrugada
Do Beco do Dólar.

Quantos pênis
Um homem precisa ter
Para conjugar
O verbo ser
Todo devastado pela
Pnenomia
Em virtude do HIV
Ex-fumantes de passado sujo
Se prostituem
Bem nas noites
Do Beco do Dólar.












sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Todo

Há infinitos maiores
Que outros infinitos?
Visto que qualquer subconjunto
Do todo
Também contem o tudo
Já que a essência
Não cabe nos olhos
A aparência
Embebeda
Repare a face envelhecida
Daqueles meninos
Explorados
A totalidade
Como uma divindade
É a união de nós dois
Menos aquilo
Que trazemos de comum
Você bem sabe
O quanto temos de comum
Mais o nosso
Complemento.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sabiá contemporâneo

No teu útero
Cabe o mundo
Nos teus dias férteis
É possível plantar e comer
As poesias se reproduzem
A estancar
Certas coisas que te comovem
Mas modificam
O teu corpo
A miar
Sobre os telhados
Pois no chão
Há minas terrestres
Com os seus mortos 
Pelo passeio
Eu sentia um tesão
Para fazer sexo com você
Mas saíam lágrimas
Dos teus olhos
Que me machucavam por dentro
Porque
O teu corpo
Era um campo de refugiados.

No teu útero
Cabe o mundo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Saudade

Como a braquiária
Sendo devorada pelo fogo
Nos imensos retângulos alaranjados
Delimitados
Por cercas de arame farpado
Também nos recorda
O apertar do peito
Perante
Sensações sem motivo
O inferno que arde em nós
Não nos deixa esquecer
De conjugar todos os dias
O verbo perder
Mas o que sentimos
Não é melancolia
Algumas vezes
Nada é tão triste
Como o verbo estar
Também não é nostalgia
Porque hipocritamente
Temos recortado
A totalidade com tesouras cegas
Mas o segredo
É não se deixar confundir
Pelo brilho dos vagalumes
Na escuridão estão as suas
Respostas
Nem se iludir com a crista salgada
Das ondas quebrando a praia
Já que a essência está
Nessas profundezas
Mas ao reparar a sua complexidade
Eu vi que você tinha
Olhos castanhos
Cansados
O que nos une
Também nos separa
O que nós sentimos
É apenas saudade.

sábado, 12 de agosto de 2017

Hedonismo

As noites são hedonistas
Cheias de vontade
Eu estava com a cabeça bem longe
Misturando verbos no passado
E no gerúndio
Você me despia
Lentamente
Mas não pode continuar
Porque havia uma criança
Dormindo na mesma
Cama
Onde a gente estava.

O batom tinha uma cor estranha
Misturava vermelho e rosa
No final
Estava espalhado
Por todas as bocas
Também nos
Órgãos genitais
Como também
No dia que amanhecia.

O dia era hedonista e amanhecia
Ardia como chamas de vida
No suor das manhãs
Naquelas feridas
Cheias de sal
O dia ao ser parido
Esconde a diferença
Entre o nascer e o morrer
Quando os corpos
São desenterrados
E ressuscitam.

domingo, 6 de agosto de 2017

Conjunto universo

Meu corpo inteiro
Em erupção
Depois de falar
Tocar, foder, gemer, calar
Mastigava uma presa
Ao rasgar sua pele
Ao beber seu sangue
Seu veneno me inebria
Seus olhos me confundiam
Seus lábios me mentiram
Como um canibal
Sem dentes
Porque eu sou um bastardo
Da minha pele estão
Brotando formigas e gafanhotos
Uma sensação sem par
Que invade as horas
Na cidade calada
Que goza calada
A parte mais linda do amor
Por isso
Se mistura com um pouco
De impaciência
Dos meus olhos estão
Brotando aviões de guerra
Vejo aranhas nas paredes
E camisas de vênus
No chão
Mas o cheiro de cravo
Nos confunde
Essa vida tem cheiro
De sepulcro caiado
Estou aqui
Jogado na cama
Sem roupas
Ouvindo Out My Mind, Just In Time
Nos dias em que não uso drogas
Sei que no fundo
Me sinto melhor
Nos dias em que não penso em você
O teu complementar
É o conjunto
Universo
Nos dias em que sou feliz
Não sobra pedra
Sobre pedra.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os milagres da vida

Os milagres da vida
Na contramão da estrada
São como flores de abacateiro
No princípio de agosto
Naqueles invernos
Onde a seca é menos rigorosa.

Os milagres da vida
Você também tem sido
Essa semente
Que rompe o asfalto.

Os milagres da vida
Na sujeira das ruas
Somos mamíferos intoxicados
Vivem nas margens
De rios envenenados.

Os milagres da vida
Em barrigas de aluguel.

Os milagres da vida
Em se doar
Poder ver e sentir.

Os milagres da vida
Quando as vistas
Escurecem
Por isso dizem
Que a vida tem gosto de
Leite.

Os milagres da vida
Como vassoura de bruxa
Devorando o cacaueiro.

domingo, 30 de julho de 2017

Ficção

Quando o teu padrasto
Tentou te estuprar
Lembro que a tua mãe ficou do lado dele
Mas eu sei
Que anos depois
Ela te pediu perdão
Porque essa história nunca saiu
Da mente dela
Atormentando-a
Como mil demônios ardendo
Como uma dor
De dente
Insuportável
Especialmente porque ela não entendia
A tua distância
A tua fria
Distância
Mas ninguém tem pena
Das lágrimas de uma mãe
Porque todas choram
Algumas dão a vida
Outras abortam.