sexta-feira, 13 de julho de 2018

Desnuda

Acordo cedo
Com cara de ontem
Vomitando desavenças
Respirando palavras tortas
Meninos tortos também têm seus dias
De podridão
Eu senti que meu caixão
Estava muito apertado
Então resolvi dá uma volta.

Eu me levanto
Com palavras de ontem
Eu faço a barba
Lavo a cara
Escovo os dentes
Fumo um baseado
Bato uma punheta
Debaixo da água quente
Perco os meios
Os termos
As conjunções
Você deveria tirar esses pontos finais
Substitui-los por vírgulas e conjunções
Depois de ejacular
Penso em sangue.

Eu escrevo poesias
Que não têm importância
O importante é o dia lá fora
Embora esteja nublado
E um pouco frio
Para ficar sem camisa
A novidade está na vida
Desnuda.

sábado, 5 de maio de 2018

Canibalismo

Façam o total silêncio
E deixe-o falar
Suas palavras dão liga
A algo que antes
Era somente o caos
Elas estão
Pela materialidade
Repare a cidade violenta
Toda pichada 
Cheia de lixo
Deixe as crianças correrem 
Deixe os velhos falarem
Ainda é cedo
Pra todo lugar que vou.

Deixe-o falar pelos famintos
Você não sente o perfume infalível 
Da fome?
Deixe a voz dele
Ecoar
Nos campos de milho transgênico 
Nas tardes quentes
Nas favelas
Nas palafitas 
Nos grandes centros
Nos lugares abandonados
No concreto
Nos campos de refugiados
Nos sonhos de moradores de rua
Dormindo na calçada
Entre jornais
Antes que cheguem os homens
Ou os catadores de papel.

Ele quer falar
Pela boca do povo
Depois todo mundo comia o corpo dele
Bebia o seu sangue
E repetia
Suas palavras.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Tertúlia dos Vales

"Oito poetas numa tertúlia, oito mundos de poesia e prosa, uma usina de letras, um garimpo de preciosas pedras-palavras, fábrica de versos carregados de água e terra, fogo e ar, tudo transpirando ouro, rico manancial de ideias num gostoso jeito de luta defendendo vidas, som de nascentes jorrando água, cheiro de corpos perfumando amores. Elas quatro e quatro eles: Marina, Isis, Vanessa, Cris, Sabiá Coitelinho, Rafael, Vinicius e Luiz. Oito belos movimentos de grandeza, em ritmo de criação, pulando de galho em galho, como palavras procurando ninhos" (Gonzaga Medeiros).

Tertúlia dos Vales


terça-feira, 3 de abril de 2018

Nos dias em que acordo sem remorsos

Nos dias em que acordo sem remorsos
Somente penso em sexo
Levanto
Com a rola na mão
Com os pensamentos
No específico
Em órgãos genitais
Nos pontos de prazer
Que existem
Espalhados
Pelo corpo
Você me disse
Que ejacular era um crime
Certos desejos sujos
Que não viram poesias
Tuas tatuagens
Não são poesia
O por do sol não é poesia
O que é poesia?

Você depilava a vulva
Eu fumava um cigarro
Contemplando-te
Então
Me lembrei de tuas palavras
Não fazia muito tempo
A poesia é uma ação calculada
Que existe a priori como uma ideia
No estado de devenir
De vir a ser
Mas que ainda não é
Não existe por si só
Depois se materializa;
Embora já existisse
Na forma de pensamento
É uma ação calculada
Toda poesia
É uma mentira bem contada.

A crueldade é uma invenção
Como o pudor
É uma consequência do pecado
Eles não percebiam a nudez
Até certo dia
Aqueles poetas bebiam vinho
Apesar de que um não bebia
Depois assassinaram
Um transeunte.

A cabeça desse cara nunca foi encontrada
Seu corpo
Foi deixado
Às margens do caminho
Não-poético.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Enquanto as bruxas queimam

Trepando
Sem
Pudor
Enquanto as bruxas
Queimam
Não havia
Percepções sinceras
Não somos papel em branco
A ser preenchido
Somos papel amassado
Que nunca retorna
Ao estado inicial.

Sim, claro

Chupou meu
Pau
Sabia muito bem
Me excitar
Com sexo e com palavras
Você me tinha na mão
Numa mão de bisca
O que te inspirava
A escrever aquelas poesias?
Por que você matou
Aquele cara?

Fez duas carreiras de cocaína
Mas eu não quis
Você insistiu tanto
Como se fosse uma desfeita
Da minha parte
Continuei negando
De repente
Você começou a chupar
Meus mamilos
Depois cheirava
Minhas axilas
Beijava meu pescoço.

Você parou de fumar
Cigarros
Mas percebo
Que sua respiração não melhorou
Apesar de sua pele
Estar melhor
As novas palavras
Que você tanto busca
Estão por ai
Dormindo
Com moradores de rua
E prostitutas
Essas palavras são
Fumadas como pedra
Em latas de refrigerante.

Você me perguntou
Se eu era feliz
Lhe respondi
Sim
Claro.

Quinhão

Meu corpo
Em brasas
Com o relógio sem bateria
Sendo fumado
Como um baseado
Mas
Eu sempre perco as horas
Embora chegue cedo
Ao meu quinhão
A função do dia
É anoitecer
O destino dos homens
É entardecer
A sina do sol
E amanhecer.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Rima

Que rima
Te excita
Te transborda
Cujo sentido
Só você conhece
E te amanhece
Acordando-te
Em meio a pesadelos
Sobre o que você
Tem sonhado?
Que te faz despertar
Com fúria?
Depois você quer transar
Fuma antes de comer
Goza depois de fingir
Para falar de você
Só é preciso conjugar verbos banais
Não sei se sinto pena de você
Ou sinto dor.

Que rima
É capaz de brotar
Na parede
Como bolor
Pessoas que nunca
Compraram livros
A casa cheia
E as vidas vazias
Nas tardes quentes
Do mais maldito
Dos puteiros.


Que rima
É capaz de te fazer gozar
Como pétalas de rosas
Caindo por si só
Já um pouco desbotadas
A vida é somente
Três verbos
Ser e estar e haver.


Que rima
Poderia te fazer
Ver Deus
O dia em que eu vi Deus
Vi uma borboleta
Caída ao solo
Que morria
Morria
Batendo
As asas.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cicatriz

Acaso você esteja
Lendo essa aberração
Saiba
Que eu não espero nada
Olho no que nós nos transformamos
Olhe para este pátio vazio
As pessoas estão morrendo
Sem saber.

Acaso você possa
Perdoar
Tem que haver perdão
Para aqueles
Que desejam sinceramente
Uma segunda chance
É um ato muito heróico
Ao mesmo tempo
Libertador.

Acaso você entardeça
Ao meu lado
Não sinta remorsos
Neste caso
Você não tem culpa
São as noites
Talvez a vida
Você poderia fingir
Mas não pode
Teus deuses não acreditam mais em você
É o momento de voltar.

Acaso você volte
Como o filho pródigo
Mordendo desventuras
Seu corpo com as marcas de prostituição
E eu
Como uma ex-mulher
Porque agora eu sou cicatriz
Eu lhe ofereço meu corpo
Sangrando.

Acaso você esqueça
Das salas de torturas
Já seria um grande avanço
Desde criança
Estes pesadelos
Lhe acompanham.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Uma poesia desconcertante

Você não percebe
Que suas palavras
São como um furacão?
Se eles erraram
Já tiveram sua condenação
Porque o tempo da mentira
Passou
Você fuma cigarros
Bebe aos goles
Você não tem mais narinas
Mas o mesmo amor
Que é sinônimo de perdão
Também é justiça
O amor é cego
E corta
Dos dois
Lados.

Eu te dizia coisas tão vivas
Mas você as matava
Depois partia
Com tristeza
Você sempre teve
Olhos tristes
Sobretudo depois de fumar
Maconha.

A verdade é que
Eu também tentava te assassinar
Envenenando
O teu café
Frio
Mas eu sempre te
Ressuscitava
Ao escrever poesias
De amor
Sobre você.

Você quer uma poesia desconcertante?
Ela disse
Acabou o vinho
Ele lhe respondeu
O que eu tenho com isso?
A minha hora
Não chegou
Ela disse para todos
Façam tudo
O que ele vos
Disser.

Sexo oral

Que a gente carrega em si
Depois esquece
Repete o mesmo
Sem perceber
Eu sempre te pedia
Pra me ensinar
A escrever poesias
Mas você nunca quis
Eu mijava
Me afeitava
Eu te comia
Com as mãos
Ao tocar
Os teus seios e as
Tuas coxas
Teus lábios, teus pecados:
Dentro do teu útero
Eu era um homem
Sem nenhuma experiência
Porque você sempre
Se apresentava
De forma distinta
Gozar parecia amor
Era um sexo oral
Sem palavras.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poemas de amor

Você me dizia
"Isso não é poesia, isso não se ensina"
Eu te respondia
"Estou falando de palavras,
Não de dores"
Você sorria
"Nada passa, embora o dia rompa
Sem nós dois e sem inspiração"
Depois te confessei
Um dia desses
"Com você valeu a pena
Escrever garranchos
Que nos feriam
Ainda mais
Que nos cortavam
Que nos tingiam"
Você perdeu as
Palavras
Desde então
O silêncio fala por nós
Porque não há novidade
Com a morte
Palavras não morrem
Palavras não sentem
Palavras não amam.
Palavras que não estacam
Poemas
De amor.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Tudo sobre o menino de olhos castanhos

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
Os vícios baratos
As mentiras sem razão
Corpos nus desbotados
Um pano fino
Seda ou tafetá, talvez
Os lençóis sujos
O cinzeiro no pé da cama
A garganta irritada
De tanto fumar
As narinas feridas
De tanto cheirar
Os olhos vermelhos
De tanto entardecer
O lixo espalhado pela casa
Junto com as roupas sujas
A vida pelo chão
Eu já sei
O banheiro é o seu único amigo
Quando você tem vontade
De chorar
As prostitutas da Rio-Bahia
Não sabem seu
Nome
Mas saiba que nada
Passou.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
Mais algumas coisas suas
Que ficaram aqui
Você deveria perdoar
A sua mãe, o seu amigo, o seu irmão
Os olhos dele brilhavam
Quando lia
Mulheres
De Bukowski.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos
E a parte mais dolorosa
De se conjugar o verbo
Viver.

Tudo sobre o menino
De olhos castanhos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal

É Natal na América Latina e em suas favelas
É Natal na sarjeta
Também no calvário
Antes e depois de se matarem
Com palavras enferrujadas
Escutem as risadas do agora:
É um amigo-secreto de produtos chineses
Estão trocando sobretrabalho chinês
Estão trocando sentimentos vazios e retornáveis
Estão trocando desejos de um mundo pela ordem
E a ordem latia
Como um cachorro na corrente
Nas economias agroexportadoras
Regidas pela superexploração
É Natal nas salas
De tortura
Após o silêncio ensurdecedor
Dos interrogatórios
Dos campos de soja
A senzala estava
Escancarada
O silêncio
É uma faca de serra
Com os dentes
Desgastados.